Seis fortes indícios do interesse dos Estados Unidos nos resultados da Lava Jato

15 de maio de 2017 - 18:50 | por Redação
Seis fortes indícios do interesse dos Estados Unidos nos resultados da Lava Jato
Opinião
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por Luiz Carlos Azenha

Barack Obama assume a Casa Branca e escala Hillary Clinton para o Departamento de Estado.

O órgão anda enfraquecido relativamente ao Pentágono, que deu as cartas na política externa durante George W. Bush.

Mas, a grana é curta. E Hillary fala em usar mais o “soft power“, apontando o Itamaraty — sob Celso Amorim — como exemplo da eficácia da estratégia.

Soft power é quase como influenciar o vizinho e convencê-lo de que seus interesses são convergentes e que vocês podem trabalhar juntos. Quando Estados Unidos e Belize trabalham juntos, por exemplo, quem tem mais força na relação? E quando isso se dá entre Brasil e Paraguai?

Soft power é usar sua diplomacia para conquistar mercados e obras no Exterior, como fizeram a Suécia no caso dos caça Gripen, o Brasil no caso das obras da Odebrecht e os Estados Unidos no caso do Sistema de Vigilância da Amazônia, o SIVAM:

Da Folha:

Espionagem do governo dos EUA e a ajuda de um militar brasileiro garantiram à companhia norte-americana Raytheon a conquista do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), projeto de US$ 1,4 bilhão de proteção da bacia amazônica que será inaugurado na quinta-feira em Manaus.

Documentos oficiais dos Estados Unidos revelam que, em junho e em julho de 1994, nas semanas que antecederam a apresentação final das duas propostas finalistas do processo de seleção do Sivam, a Casa Branca soube, por meio de “fontes dos serviços de inteligência”, que as condições de financiamento oferecidas de forma sigilosa pela francesa Thomson-CSF (que mudou seu nome para Thales em 2000) eram melhores que as da Raytheon.

Com base nessa descoberta, diplomatas americanos reuniram-se sigilosamente com o tenente-brigadeiro Marcos Antônio de Oliveira, então coordenador do processo de seleção da empresa que forneceria equipamentos ao Sivam, e, todos juntos, puseram em prática uma estratégia que melhorou a proposta da Raytheon e garantiu sua vitória. Hoje, Oliveira é o chefe do Estado-Maior da Aeronáutica.

Os documentos, cerca de 400, são do Departamento de Estado, do Departamento de Comércio, da CIA (agência de inteligência) e da embaixada dos EUA no Brasil. Foram obtidos pela Folha ao longo dos últimos três anos com base na lei norte-americana da liberdade da informação –“Freedom of Information Act”. Outros cem papéis sobre o Sivam foram total ou parcialmente censurados.

No mundo real, é assim que funciona.

É óbvio que os Estados Unidos nunca engoliram a ideia de que o Brasil poderia projetar poder sobre seu “quintal”, na América Latina, disputando mercados e influenciando eleições. Mas, na diplomacia, isso sempre foi assim (mais recentemente, na clara opção preferencial de Vladimir Putin por Donald Trump).

Portanto, é bom juntar os indícios de que os Estados Unidos, se não promoveram diretamente a Operação Lava Jato e o impeachment de Dilma, não assistiram passivamente aos acontecimentos no Brasil —  por exemplo, à aproximação preferencial com os Brics ou atuação destacada nos organismos multilaterais.

Vamos a alguns deles:

1. A National Security Agency (NSA), dos Estados Unidos, espionou a Petrobras e, pessoalmente, a então presidente Dilma Rousseff, que chegou a utilizar um celular comum;

2. Assim que foi dado o golpe contra Dilma, as ações adotadas por Michel Temer na estatal vieram ao encontro dos interesses dos acionistas e, por acaso, dos Estados Unidos: transformar a Petrobras em mera furadora de poço (não mais, como a Shell e a Exxon Mobil, uma empresa que atua do poço à bomba). Isso significa acelerar a produção do pré-sal, o que implica em derrubar o preço internacional do petróleo e abrir mais espaço para as multinacionais, às quais faltam oportunidades de negócios devido ao grande controle estatal sobre o petróleo em todo o mundo;

3. O destaque dado por várias publicações norte-americanas ao juiz Sergio Moro, que estudou nos Estados Unidos e fez um tour pelo país bancado pelo Departamento de Estado;

4. A negativa de visto dos Estados Unidos ao senador Romero Jucá, acusado mas ainda não condenado por envolvimento na Lava Jato. Um recado a outros investigados: não há como escapar;

5. A descoberta, agora, de que o governo Lula — segundo os marqueteiros João Santana e Monica Moura — pode ter interferido na reeleição de Nicolas Maduro na Venezuela e na eleição de Mauricio Funes em El Salvador, através da Odebrecht, fazendo avançar interesses da diplomacia brasileira dentro do “quintal” dos Estados Unidos. É óbvio que Washington tem olhos e ouvidos fiéis nos dois paises e jamais aceitaria que outro país fizesse o que Washington faz todos os dias em todo o planeta.

6. O jogo duro da Lava Jato não apenas com os executivos corruptos, mas com a empresa Odebrecht, uma das maiores exportadoras de serviços do Brasil. Acordos de cooperação internacional fechados pela PGR, dos quais o Executivo brasileiro foi praticamente excluído, são entendimentos entre burocracias que apenas aparentemente são despolitizados. Vejam o caso da Raytheon, acima, para entender que nos Estados Unidos há “vasos comunicantes” e cooperação entre as agencias governamentais, de maneira a colocar acima de tudo os interesses políticos, diplomáticos e econômicos de Washington.

 

 

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