85 anos de Jair Inácio - Uma linha do tempo

7 de agosto de 2017 - 08:15 | por Sergio Sanches
85 anos de Jair Inácio - Uma linha do tempo
Cultura
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No ano em que comemoramos os 85 anos de nascimento do restaurador Jair Afonso Inácio, fazemos uma cronologia de sua vida.

por Rayssa Amaral no Marginália

O menino que nasceu em Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, não sonharia que um dia viajaria o mundo e deixaria um grande legado para o patrimônio histórico brasileiro. Em 2 de agosto de 1932, vinha ao mundo Jair Afonso Inácio, que aos 13 anos começara sua carreira nas artes, pintando e vendendo seus quadros nas ruas de Ouro Preto. Aos 15 fez sua primeira exposição, vendendo 12 de seus 15 quadros em um hotel em Paris. O sonho de ser artista plástico se dividia com o trabalho de sapateiro, as aulas de inglês e o curso noturno de madureza, curso que era intensivo do colegial, atual Educação de Jovens e Adultos, porém o curso não fora reconhecido.
Em 1949 exerce seu primeiro trabalho em restauração como auxiliar de pintura de Estevão de Sousa, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Com a falta de verba é dispensado e em 1951 começa a trabalhar de auxiliar de cozinha no Grande Hotel de Ouro Preto. Com a facilidade para línguas, a administração do hotel o envia para a recepção, já que naquela época, poucas pessoas falavam inglês. No mesmo ano é chamado para chefiar a restauração da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, no distrito de Cachoeira do Campo, em 1952 passa para a restauração da Basílica de Nossa Senhora do Pilar. Já em 1955 ingressa na equipe da Igreja
Em 1956, Jair é convidado para fazer a especialização em Restauração de Obras de Arte na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro | UFRJ. Em 1957 tem suas obras expostas no Salão Latino Americano em Paris e é convidado a compor o grupo de restauração da Igreja Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo. Passando na sequência para as restaurações da mesa do altar da Capela do Palácio do Arcebispo, em Diamantina, e Igreja Nossa Senhora do Pilar, em São João Del Rei. Simultaneamente, no ano de 1958, Jair chefia a volta das obras da Basílica de Nossa Senhora do Pilar, começando as da Igreja Santa Efigênia e da Capela do Padre Faria, todas em Ouro Preto, e a da Sé de Mariana.
Por indicação do Departamento de Patrimônio Histórico Nacional | DPHAN, recebe uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller para cursar Restauração de Obras de Arte, no Institut Royal de Patrimoine Artistique, na cidade de Bruxelas, capital da Bélgica, tendo como orientador, Paul Coremans. Ainda na Europa, é convidado em setembro de 1961 pelo Instituto Internacional de Conservadores, para participar de uma conferência em Roma, na Itália, tornando-se membro do Instituto. Em outubro do mesmo ano, é convidado pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios | ICOMOS, para participar de uma conferência em Barcelona, na Espanha.
Com a discussão sobre os problemas de climatização para obras de arte na América Latina, se torna membro de uma equipe internacional de restauradores pela United Nations Educational Scientific and Cultural Organization | UNESCO, para discutir sobre os problemas na conservação de bens patrimoniais. Seguindo sua especialização, em 1962 passa por 13 laboratórios em diversos países: Bélgica, Noruega, Dinamarca, Alemanha, França, Espanha, Portugal, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. Tendo como professores diversas autoridades de renome mundial nos trabalhos de conservação e restauro e aprendendo técnicas até então pouco conhecidas no mundo. Em seus estágios participa da restauração na obra Descida da Cruz, de Peter Paul Rubens, na Catedral de Antuérpia, e nos afrescos da cripta da Catedral de Lovaina, ambas na Bélgica.
Retornando ao Brasil em 1962, casa-se com Zenith Alves, de quem já era noivo antes de sua partida para a Bélgica. Montou um ateliê, onde Zenith que também fora aluna, trabalha junto a Jair.
No ano de 1965, inicia as restaurações da Capela Bom Jesus de Matosinhos e Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, ambas em Itabirito; Igreja Matriz Nossa Senhora do Bonsucesso, em Caeté, Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Seurrat em Baependi, e recoloca o teto da sacristia da Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto, que desabou em 1961. Trabalhando também no retábulo-mor da Capela do antigo Palácio dos Governadores de Ouro Preto, atual Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto | UFOP, que no momento estava na Capela do Colégio Dom Bosco, em Cachoeira do Campo.
Além das obras de restauração, leciona também em 1965 o primeiro curso de pós-graduação Restauro e conservação de obras de arte, oferecido pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo — FAU | USP. No ano seguinte, 1966, trabalha nas obras da Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Prados; Igreja São Francisco de Assis e Igreja Nossa Senhora do Rosário, ambas em Caeté, e Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto, lecionando línguas no Colégio Baeta, em Ouro Preto. Em 1967 agrega a seu currículo a chefia da obra do Passo da Ponte Seca, em Ouro Preto. No Porão da Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto, é catalogador das peças do Museu do Aleijadinho, em 1969. Ensina também a disciplina de História da Arte para alunos do curso de Guia de Turismo, focando nas restaurações que realizava.
Em 1975 funda seu ateliê, então na Rua Conselheiro Quintiliano no bairro das Lajes, onde após sua morte, a família administraria a Pousada Jair Inácio. No ateliê, diversos alunos estagiaram e Jair trabalharia com restaurações, laudos, catalogação de obras de arte, com pinturas e desenhos e nos estudos de artes e línguas, autodidata, Jair aprendeu 7 línguas: inglês, Alemão, Francês, Italiano, Flamengo, Húngaro e estava aprendendo polonês.
No ano de 1977, Jair Inácio inicia a restauração da Igreja Bom Jesus das Flores, no Taquaral, e ingressa como professor do curso de “Restauração de Obras de Arte” na Escola de Belas Artes da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais | UFMG.
Ainda consta em seus trabalhos a restauração da cabeça da escultura de São Pedro Apóstolo, que ficava no adro da Igreja São Francisco de Paula, depredada em 1980. Fez a recolocação da tela “Prisão de Tiradentes” no palco do Conservatório de Música, em Belo Horizonte; e também a remoção de um painel de Di Cavalcanti do oitavo para o primeiro andar do Banco do Estado de Minas Gerais. Supervisão da restauração da tela “Santa Ceia”, de Manuel da Costa Athayde, obra de 1828. Descoberta da pintura de teto do Salão Nobre do Museu de Sabará; participação na restauração da coleção Arnaldo Guinly, em Petrópolis, e do acervo do Jockey Club, no Rio de Janeiro. Fez a restauração do acervo de um chanceler belga, no Rio de Janeiro; a restauração de telas do século XIX, no Museu de Belo Horizonte; e o levantamento das peças do Aleijadinho e outros artistas da mesma época.
Em 1980 é contratado pela Fundação Pró- Memória, entidade ligada ao SPHAN, continuando os trabalhos. Falece em 3 de agosto de 1982, em frente ao paredão das lajes, olhando a paisagem que tanto amou e lutou para conservar. Deixando a esposa, Zenith Alves Inácio, e quatro filhos: Roxana, Laida, Turinã e Lino, e o legado de ser um dos maiores restauradores do mundo
Pelas mãos do poeta e músico Vinícius de Moraes, pela atriz Domitila do Amaral, pelo historiador Affonso Ávila e pelo escritor Murilo Rubião, em 11 de fevereiro de 1969, é instituída a Fundação de Arte de Ouro Preto | FAOP. Em 1971, Jair funda o curso Restauração de Obras de Arte, o atual Curso Técnico de Conservação e Restauro da Escola Rodrigo Melo Franco de Andrade, na instituição. Dentro da FAOP, Jair participa de diversas atividades culturais como cursos, conferências, concursos, palestras e espetáculos. Criação da primeira Galeria de Arte da cidade, dia da criação, concurso de presépios, concurso de papagaios e balcões floridos. Trazendo ainda artistas para a Semana da FAOP, onde as discussões eram levadas a comunidade.


Dentre os alunos da primeira turma de Jair estão Márcia Valadares, José Efigênio Coelho Pinto, Maria José Assunção da Cunha, Orlando Ramos, Adriano Ramos, Marta Rúbia Resende, Marta Rioga, Sílvio Luiz Rocha Viana de Oliveira, Júlio Victoria Barros, Joaquim Manteiga, Júlio Hermendane, Ângela Leite, Paulo Chiquitão, Luiz Antônio Chiquitão, Vinícius Godoy, Mônica Versiani, Júlia Amélia Vieira, Klauss Ataíde, Fátima Guedes, Maria de Jesus Versiani, Deolinda Vicente Rioga, Sueli Damasceno, Ângela Pinheiro, Ney Cocada, sendo muitos deles com êxito na restauração ou áreas afins.

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